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6 de fev. de 2025

"COCA COLA COM LIMÃO E GELO"

 (Isso não é uma publicidade para a Coca Cola. E nem é um artigo formal)


Meu caro, minha cara...


Lendo comentários aleatórios de publicações aleatórias aqui no linkedinho, me deparo com algumas situações exdrúxulas. Um exemplo: uma pessoa posta o print de um trecho de uma conversa que teve com outra no whatsapp e, desse trecho, sai uma reflexão.

Daí vem um Zé Mimimi (ou dois, ou um monte) que começa a jogar várias suposições no ventilador. E à medida que as suposições vão dando cria, o nível de emputecimento do motoboy de treta aumenta. A troco de que? De nada, óbvio.

A treta da semana passada foi sobre processo seletivo. Ou melhor: sobre a fase de recrutamento. Uma pessoa convidou um candidato para uma entrevista, mas o candidato recusou a vaga porque batia com o seu horário da academia. Nos comentários, havia uma galerinha (os "Zés Mimimis" que falei a pouco) com suas suposições e teorias e - ao final - o veredito de alguns foi que a recrutadora era uma pessoa intransigente por falar que todos os empregos iriam conflitar com o horário da academia do candidato.

Com base nisso - e com base nas histórias que eu acumulei durante a minha carreira - eu posso dizer que fiquei bem desgostosa. Porque essa galerinha do "assumption is my passion" acha que esse tipo de situação acima é esquete.


E o duro é que quem trabalha com RH sabe que NÃO É ESQUETE!


Quer ver como que não é? Vou te provar.


Estava eu em Rio Verde, nos idos de 2015...

...viajando a trabalho. Era a 2a vez que eu ia para lá pois uma das regionais que eu prestava serviço precisava de um apoio do RH para umas coisas.

Fiquei num hotel ótimo: novinho em folha, tudo funcionando, a cama era maior que meu quarto em Ribeirão Preto. Além de mim, outras pessoas da mesma empresa estavam na cidade, cada uma de um setor diferente.

Combinamos no café da manhã que todos iríamos nos encontrar à noite no saguão do hotel para ver onde iríamos jantar. Terminamos o café e cada um pegou o seu caminho da roça.

Quando nos encontramos à noite (estávamos em umas... 7, 8 pessoas...), decidimos que jantaríamos no próprio hotel. Além de nós e outros poucos clientes, estava uma comitiva imensa da Monsanto - e toda a estrutura do hotel estava praticamente por conta deles naquela semana de dias de campo.

Por isso, quando sentamos no restaurante do hotel, ninguém veio nos atender. Passou 20 minutos, apareceu uma menina atarantada, pegando nossos pedidos. Mal anotou os pedidos e saiu para atender o pessoal da Monsanto. Outros 15 minutos se passaram e apareceu a mesma menina pegando nossos pedidos novamente. Já havíamos nos arrependido de termos feito essa escolha quando o primeiro prato aparece, 5 minutos depois. Outros dois pratos apareceram 20 minutos depois do primeiro. E foi assim que os pedidos foram chegando: com 10, 15, 20 minutos de diferença um do outro.

E eu, que sou uma pessoa abençoada pela sorte, tive meu pedido anotado três vezes - e solenemente ignorado em todas elas.

Pela última vez, já azul de fome e muito irritada, passei meu pedido para a menina. Ao final, ela me perguntou se eu queria algo para beber e eu disse "Sim: me traz uma Coca Cola com limão e gelo, por favor."

A menina olhou para mim.

Olhou para seu bloquinho de pedidos.

Olhou para mim.

Olhou para a porta da cozinha.

Olhou para a geladeira dos refrigerantes.

E proclamou:

"É que só tem latinha!"

Na hora eu saquei o que aconteceu. Ela não entendeu p&#*@ nenhuma...

Respirei fundo, mega irritada, peguei um copo que estava sobre a mesa, olhei para ela e falei:

"Você vai pegar esse copo, vai lá na cozinha, pega duas rodelas de limão, vai encher esse copo com cubos de gelo, vai voltar aqui para o salão, passa naquela geladeira, pega uma latinha de Coca Cola e traz para cá a latinha de Coca Cola, com o copo, as rodelas de limão e o gelo."

(em minha defesa, na época eu era a Marol do Velho Testamento e a mesa toda respirou aliviada por eu não perder o meu réu primário naquele momento. E eu estava com muita fome na hora)


Sabe o que aconteceu?

A guria respirou aliviada e fez exatamente isso!


E qual a moral da história?

Não tem moral nenhuma, não.

Mas tem uma constatação: há pessoas que não tiveram a oportunidade de ter contato com experiências e conhecimentos que a fariam capaz de interpretar um pedido como o que eu fiz.

(ou alguém aqui acha que a Coca Cola faria uma edição de refrigerante + rodelas de limão + cubos de gelo dentro de uma latinha para colocar em vending machine?????????)

Aquela menina foi contratada temporariamente para dar uma força naquela semana, ela não era garçonete, não teve treinamento para isso (nem tinha uniforme do hotel!). Ela foi "jogada" ali com a instrução "pegue os pedidos dos clientes, leva para a cozinha e depois entregue os pratos que eles pediram".

(eu já trabalhei com isso e posso dizer que é bem mais complexo do que muitos imaginam)

Quando eu descrevi o processo da "Coca Cola com limão e gelo", o rosto dela se iluminou! Ela nem percebeu que eu estava pronta para cometer um assassinato (o dela, no caso).

E é isso que a gente (do RH) tem que lidar: com toda a sorte de pessoas, em todos os tipos de situações. E são pessoas como aquela garota de 18 anos que muitas vezes a gente se depara: sem instrução formal, sem orientação, sem histórico de experimentação, sem alguém que a instigasse a ir além... teve pouco ou quase nada para alimentar sua massa cinzenta.

Assim como tantos outros, aquela moça aprendeu a ler, escrever, fazer as 4 operações matemáticas básicas e foi jogada para o mercado de trabalho para ser mão de obra barata... E vamos ser sinceros aqui: hoje, quem tem diploma universitário já cai nesse moedor de carne chamado "mercado de trabalho" pra ganhar uns 2 salários mínimos... que dirá quem mal completou o Ensino Médio (ainda mais agora, com esse desastre no "Novo" Ensino Médio...)

Vai ter gente que vai ler essa história e vai falar: "nossa, você foi bem escr0t@ com essa menina, heim?". E sim: eu fui. Infelizmente fui um serumaninho mega arrogante no passado e não dá para negar isso - mas dá para assumir o erro e mudar, que é o quevenho fazendo desde então.

Só que o fato permanece: quando o assunto é GENTE, temos que tirar leite de pedra muitas vezes... Nem sempre temos a sorte de acharmos profissionais com formações e/ou experiências impecáveis. Boa parte do tempo temos que trabalhar com o que tem. E daí temos que ser diretos, objetivos, falarmos a verdade, orientar o que pode e o que não pode fazer, ver se está fazendo certo ou errado, treinar, conferir, conversar, ensinar o chefe a liderar equipe, tomar um café junto com a pessoa, puxar a orelha quando necessário, elogiar quando necessário, brigar com o chefe em prol da pessoa quando necessário, tirar as dúvidas, treinar de novo, falar a verdade sempre, orientar, orientar, orientar...

Se, por um acaso, você tiver um coleguinha que for do tipo que acha que mora num planeta onde esse tipo de situação é uma fanfic, mande esse texto para essa pessoa. É possível que lla continuará achando que mora num mundo onde os adultos são seres "essencialmente racionais, sensatos e interessados no bem comum e na busca pelo conhecimento".

Contudo, meu caro e minha cara, nós três sabemos que esse mundo não existe.


Ribeirão Preto, 06 de fevereiro de 2025

16 de out. de 2024

A CAIXA DE RECORTES

 Meu caro, minha cara...


Quando olho para trás, para a minha adolescência na década de 1990 (isso denuncia a minha idade, eu sei), uma imagem clara se forma: as tardes passadas decorando caixas. Usando tudo que estava ao meu alcance — caixas de bombons, de biscoitos, de sapatos e outras mais — eu explorava um mundo onde a imaginação não conhecia limites. Cola branca nas mãos, verniz incolor para dar aquele toque especial, e uma caixa repleta de recortes de revistas ficava pronta. Estava sempre atenta para arrancar páginas de revistas para guardar fotos de praias, por do sol e letras estilizadas. Criar era um tipo de terapia.

Mas o tempo passou, e por diversas razões —falta de tempo, ou simplesmente a mudança de interesses — parei com as caixas. Contudo, essa prática não desapareceu completamente. Ao que parece, a minha "caixa de recortes" evoluiu para algo mais complexo, mais sutil, mas ainda assim extremamente potente: a caixa de recortes mental.


A transição para a “caixa de recortes mental”

Eu amo tirar fotos. Sério. Até tenho uma câmera profissional para isso. E quando saio para fotografar, tiro várias, mesmo sabendo que a maioria não vai prestar para nada. Porém eu sei que uma delas vai se tornar meu novo fundo de tela, um quadro ou talvez uma imagem inspiradora para um projeto. Viagens, momentos significativos, reportagens impactantes — tudo isso se acumula, como recortes de revista, em uma caixa invisível que carrego dentro de mim. Cada experiência, cada ideia, é armazenada para um eventual uso, mesmo que esse uso muitas vezes ainda não esteja claro.

Viver em um mundo saturado de informações pode ser tanto um presente quanto um desafio. Blogs, redes sociais como Pinterest e Instagram, e páginas de entrevistas inspiradoras se tornaram ferramentas que alimentam minha caixa de recortes mental. Guardar ideias de shows, filmes, músicas e até mesmo DIY (faça você mesmo) me ajuda a construir um repositório que, confesso, nem sempre sei como usá-lo. Mas sei que está lá, em algum lugar, à espera do momento certo.


A caça ao conhecimento: enriquecendo a caixa

Recentemente, percebi que essa caixa não se limita apenas a memórias ou ideias estéticas. Ela se estende à minha vida profissional e pessoal. Ao ler um e-book interessante, assistir a uma palestra instigante ou mesmo ao consumir conteúdo mais trivial, tudo vai para dentro da minha colecionável mental. A beleza dessa prática é que nem sempre sabemos quando essas ideias se tornarão úteis. Às vezes, elas se revelam em momentos de necessidade, oferecendo soluções que nem imaginávamos ter.

Digo com frequência que “a gente nunca sabe de onde vai vir o conhecimento que a gente precisa para resolver algo”. Essa é a essência de manter a nossa caixa de recortes mental sempre ativa e em expansão. Esse tipo de abertura e curiosidade é basilar em um mundo que muitas vezes se apresenta "pasteurizado", como um grande Canva sem releituras criativas.


A Tecnologia e a Criatividade: Amigas ou Inimigas?

Hoje, vivemos cercados de tecnologias que prometem facilitar a criação e a gestão de informações. O Canva facilita a edição de imagens, o PowerBI transforma dados em insights, e o ChatGPT escreve textos impecáveis. No entanto, essa mesma tecnologia pode encorajar uma certa preguiça criativa. É fácil se deixar levar por ferramentas que oferecem soluções rápidas e convenientes, mas que podem roubar nosso impulso criativo.

O problema não está apenas nas ferramentas em si, mas na maneira como escolhemos usá-las. A criatividade não deve se restringir ao que essas plataformas nos permitem fazer. A verdadeira magia está em sair dessa zona de conforto que vários sistemas nos deixam (ou “sair do conforto da zona”, como uma ex gestora minha me disse uma vez) e buscar inspiração em lugares inesperados. Quando nos limitamos a seguir as diretrizes do que é apresentado, corremos o risco de nos tornarmos apenas mais uma voz em um mar de uniformidade.


A importância de ser proativo na criatividade

Pare e pense: você tem uma "caixa de recortes". Se você percebe que tem uma, ótimo! Entretanto, se você duvida da existência da sua caixa, ou se sente que deveria ter mais conteúdo, talvez seja hora de refletir sobre sua abordagem frente à informação e à inspiração.

Manter uma mente curiosa, exploradora e aberta a novas ideias é a chave para se destacar em um mundo saturado. O conhecimento colhido pelo caminho pode ser a solução não só para as questões da vida profissional, mas também para desafios pessoais. Como posso aplicar esta ideia em minha casa? E essa música que me inspira, como posso usá-la na minha rotina para trazer um novo ânimo? As possibilidades são infinitas, desde que não tenhamos medo de buscar e de explorar.


A conclusão da minha jornada pessoal (conclusão? eu falei isso mesmo??)

Quando mais jovem, eu não sabia a importância daquilo que estava fazendo. Decorar caixas era apenas uma forma de passar o tempo e expressar minha criatividade. Hoje, reconheço que essa prática moldou a maneira como percebo o mundo e a mim mesma. Essa "caixa de recortes" mental tornou-se um recurso valioso em minha vida que, ao lado de ferramentas tecnológicas, me encoraja a buscar constantemente por novas referências e soluções criativas.

Portanto, convido você a explorar sua própria "caixa de recortes" e a enriquecer seu mundo com novas experiências, ideias e inspirações. A criatividade, assim como a vida, é um processo em constante transformação. E nunca se sabe quando aquela velha caixa de recortes poderá sair da prateleira e se transformar em algo extraordinário. Então, não hesite: comece a coletar, a criar e, principalmente, a acreditar que as melhores ideias estão à sua espera, quer você as saiba ou não.


Ribeirão Preto, 16 de outubro de 2024




7 de out. de 2024

O VELÓRIO DE TODOS NÓS

 Meu caro, minha cara,


Hoje, meu tio João faleceu. Não sei ainda o que aconteceu. Só sei que ele estava doente e que, depois de 20 dias internado, ele se foi.

Não falo muito sobre a família da minha mãe, mas isso agora não tem importância.

O velório será amanhã e o enterro também. Estava falando com meu marido a respeito, enquanto intercalava choro e afagos na Riccota, minha irmã de pelo.

A conversa girou em torno sobre a utilidade do velório. Ele não gosta pois se lembra do velório do pai. Ao lembrar das palavras da mãe dele, “nós nunca mais o veremos novamente”, isso o pegou demais. A tristeza era avassaladora. Eu lembro. Eu estava lá e testemunhei tudo.

Da mesma forma, quando meus pais morreram, ele testemunhou a minha dor. Ele ainda faz isso, aliás. Com meus pais não teve velório. Ambos morreram de Covid e não houve velório para nenhum deles. Todos ficaram de longe, acessíveis apenas pelo whatsapp, com medo de se infectarem.

Quem pode julgá-los? Errados eles não estavam.

Por causa da pandemia também não houve o velório do meu tio Edmilson, que faleceu por causa de insuficiência cardíaca. Mesmo não sendo vítima da Covid, proibiram o velório para evitar aglomeração de pessoas.

Amanhã será o velório do meu tio João. Verei minha família lá. A família que não pude estar perto para chorar por todos os que se foram, com todos os que ficaram. Será o primeiro velório “decente” que teremos.

Infelizmente, algo decente virá de algo muito, muito triste.


Ribeirão Preto, 07 de outubro de 2024.




25 de set. de 2024

CORPORATE COMEDY: RINDO PARA NÃO CHORAR...

 Meu caro, minha cara...


O stand up comedy (ou só stand up, no geral) tem várias linhas de humor: a de costumes, cotidiano, política, a de resistência e a autodepreciativa.

(não coloco aqui os “politicamente incorretos” porque fazer piada com gênero, etnia, classe social e o escambau é coisa de gente idiota. Aliás, o stand up de resistência costuma tirar sarro desse tipo de “gente”)

Bom, mas voltando ao assunto: tem um monte de tipos de stand ups por aí.

E o que isso tem a ver com esse ambiente “mágico” que é esse daqui onde estamos? Ultimamente, bastante coisa.

Motivo: tenho reparado no aumento de profissionais que publicam aqui postagens TIRANDO SARRO desse “mundo-corporativo-sério-e-sisudo-em-que-somos-obrigados-a-trabalhar”, ou do seu primo, o “mundo-corporativo-cheio-de-esperança-e-gratiluz-que-só-deve-existir-para-aumentar-as-vendas-de-Vonau-ou-DraminB6”.

(pode ser que seja só o algoritmo do linkedinho - @tatiany lukrafka, não nos conhecemos, mas vou usar o apelido “carinhoso” que deu para essa plataforma linda, tudo bem?)

E como o linkedinho é uma rede corporativa, a tiração de sarro geralmente orbita entre os seguintes temas:

- Galerinha animada que usa o linkedinho para mostrar o mundo corporativo como o Reino dos Unicórnios, mesmo a gente sabendo que tá mais para Curral dos Pôneis Malditos;

- Pessoal de atendimento ao cliente desabafando sobre cliente folgado;

- Vagas arrombadas;

- Trabalhos arrombados;

- Profissionais fazendo piada com os RHs;

- Todo mundo tirando onda com a Gupy.


(não coloco no elenco os itens “gestores arrombados”, “colegas de trabalho arrombados” e “subordinados arrombados” porque eu acho que o pessoal ainda tem vergonha e precisa pagar os boletos).

Pois bem: como sou do RH (e do MKT, agora que tive que virar empreendedora na força do ódio - não a parte do RH e MKT, mas a parte do empreender), vou focar aqui nas áreas em que atuo hoje.

Todo santo dia eu abro meu linkedinho e me vejo obrigada a comentar postagens com frases e memes que dizem “rindo, mas de nervoso”, “rindo, mas com respeito” ou “rindo para não chorar”.

Porque... sério: tem vezes que só fazendo PIADA para aguentarmos as coisas que acontecem na nossa vida profissional, não importa se é problema com sistema, cliente, fornecedor, gestor, candidato ou coleguinha. Não tem clonazepam no mundo que chegue o tanto que a gente precisa de uma válvula de escape eficaz para aliviar a pressão!

E sobre o riso, a piada, o humor... Freud explica, viu?



Fazer humor é uma válvula de escape poderosa, um meio de falar tudo o que se deseja por meio do gracejo e da brincadeira. É a habilidade de achar similaridades entre coisas que não têm nada a ver uma com a outra - em outras palavras, encontrar similaridades escondidas. E quando isso acontece, o riso é o resultado.

E por quê?

Porque nos faz pensar em coisas novas (e coisas novas geralmente nos atraem). E porque nos alivia o peito, por falar abertamente algo que não havíamos visto antes uma forma de falar o que queríamos, sem nos prejudicar ou prejudicar alguém.

E para criticar algo sem perder o réu primário, vale tudo: jogo de palavras, duplo sentido, ironia, memes sem fim...

E o que tudo isso tem a ver com mundo corporativo e stand up?

O linkedinho está sendo povoado por vários esquetes de stand up depreciativo e autodepreciativo desse “mundo-corporativo-sisudão”. Já havia reparado nisso?



E não é à toa. Esse ambiente mega protocolar, todo “sério” e “cinza” que vendem pra gente como o “mundo do trabalho”, não existe dessa forma... Ele é muito pior para muita gente e muito mais legal para outras. Vai depender da escolaridade do sujeito, cor da pele, CEP, sobrenome, sorte...

E nesse imbróglio todo, tem gente que:

- Fica doente por causa do trabalho, porque quer atender a padrões de excelência que só existem no mundo das ideias;

- Se acha no direito de tratar mal e ser arrogante com outras pessoas, independentemente de ser ou não melhor tecnicamente melhor que elas;

- É egoísta e não ajuda o coleguinha quando precisa;

- Aceita ser humilhado no trabalho, achando que não vai conseguir coisa melhor que o ajude a pagar seus boletos...



Esse caminhão de postagens que eu vejo por aí, brincando e falando sério ao mesmo tempo, sobre os problemas que enfrentamos no trabalho ou na busca por trabalho... Isso é um sinal de que as coisas não estão bem e que, de alguma forma, estamos nos decidindo sobre falar a respeito.

Mesmo que seja fazendo stand up corporativo.


(...esse é o momento em que eu paro e penso sobre como vou fazer um parágrafo final que conclua o texto, deixando uma boa reflexão para o leitor que chegou até aqui)

(Mas percebo que é inútil, pois não há boa reflexão frente a um ambiente que, no geral, ainda é tóxico e explorador para tantos. Em diferentes níveis, eu sei...)

(Portanto, vou dar uma de J. D. Salinger e terminar por aqui, sem final, porque sei que esses questionamentos estão apenas começando. E coisas que começam não devem ter uma conclusão tão precipitada assim...)


(pois tem vezes que mundo corporativo não tá merecendo ser levado a sério...)


Ribeirão Preto, 25 de setembro de 2024


5 de mai. de 2024

O OVO DE MADEIRA

 Meu caro, minha cara,

Eu acho que foi a minha avó paterna que me mostrou pela primeira vez. E também acho que era uma coisa da minha bisavó, assim como a Pretinha (uma tesoura velha e preta que ela tinha).

Era um ovo de madeira maciça, parte integrante de um jogo de costura feito por minha bisavó com crochê, fuxico e um pote velho de margarina.

Esse pote era antológico lá em casa; por dentro ficavam diferentes linhas coloridas e por fora, na tampa, tinha a almofadinha de fuxico onde as agulhas ficavam espetadas.

O ovo não tinha lugar no pote, mas ficava ao lado dele, dentro do guarda-roupas da minha avó, junto com a Pretinha.


Aquele ovo, para mim, era mágico. Não me pergunte porque: magia não se explica.


Se você, meu caro e minha cara, não sabe porque raios um ovo de madeira é parte de um kit de costura, eu explico.

Esse ovo é usado como base de apoio para remendar tecidos, ao mesmo tempo em que protege seus dedos: você envolve o ovo de madeira com a parte do tecido que está danificada e remenda o rasgo ou buraco amparado nele. Se a agulha escapar, ele vai atingir o ovo, não seus dedos.


O tempo passou e minha vó morreu. Cinco anos depois, meus pais morreram. Já falei sobre isso lá atrás e não vou me delongar aqui.


Na partilha dos bens, meu irmão deu a diretriz: "Eu acho que a gente deve preservar as músicas, os quadros, as fotos, os filmes e livros deles. O resto, eu não tô nem aí."

Achei coerente. Ele falou o que eu pensava.

Então lá fomos nós (minha cunhada e eu) separar as coisas dos meus pais: o que seriam vendidos com a chácara, o que doaríamos, o que ficaria pra gente, o que seria jogado fora.

E, no meio disso tudo, aparece o ovo de madeira e a Pretinha (não sei o que foi feito do pote).

Meu olho cresceu, queria os dois de qualquer jeito.

Bom que meu irmão nem deu trela pra isso. O ovo ficou para mim.


E por que eu resolvi falar do raio desse ovo justo agora?


Porque eu o usei hoje e me dei conta que ele é algo simples e efetivo quando o assunto é coser. Acho que foi essa simplicidade que me cativou.

A forma como ele me ajuda num problema quando remendo uma bermuda, um lençol ou uma meia é tão... singela... e tão genial ao mesmo tempo.

Requer apenas que você tenha o mínimo de coordenação motora fina. Facilita o serviço e protege contra agulhadas involuntárias (um verdadeiro EPI).


Uma solução elegante para algo tão trivial.


Fico pensando quantas outras soluções como essa estão por aí no mundo, prontas para serem convertidas em algo concreto, palpável, usável.

Pois quando escuto pessoas falando em "soluções", essa palavra sempre vem acompanhada do adjetivo "inovadoras". Virou um clichê tão chato... E me faz questionar se é realmente uma "solução" ou se é só "mais-do-mesmo-gourmet".


(...)


Na próxima semana, começarei um novo desafio de trabalho. Não sei bem o que me espera e sinceramente temo que me peçam "soluções inovadoras" para os problemas que eu sei que existem.

Pois quando penso em problemas e soluções, eu só consigo pensar no ovo de madeira - e como as coisas deveriam se parecer mais como ele.


Ribeirão Preto, 05 de maio de 2024




22 de abr. de 2024

CAIBA NAQUILO QUE TE CABE

Meu caro, minha cara.


Anos atrás (ouso dizer que isso deve ter uns 10 anos ou mais), fui numa palestra sobre o lançamento de um livro que tratava sobre Gestão de Carreira.

Foi lá que conheci a Teoria do Terço. Achei algo tão simples que seria difícil alguém não entender do que se tratava.

E segue a teoria:

Em qualquer situação ou problema, divida a responsabilidade por ele em três partes.

  • Um terço da responsabilidade está nas circunstâncias. Trocou o governo, choveu demais, fez muito sol, Mercúrio está retrógrado, rolou uma enchente monstruosa na sua região, virou o mês, começaram uma guerra. Não importa o que aconteça, as circunstâncias geralmente são coisas que não podemos evitar ou mudar seu curso apenas com nosso esforço;
  • Um terço da responsabilidade está nas outras pessoas envolvidas na situação: seu chefe, seus amigos, colegas de trabalho, sua família, seus contatinhos, aquele Exú sem luz do condomínio que nasceu para testar seu réu primário. Todas as pessoas que em maior ou menor grau tem um dedinho na situação ou problema em que você tem na sua frente para enfrentar;
  • Um terço da responsabilidade está em você mesmo: quais conhecimentos você tem, quais coisas desconhece, como já lidou com coisas semelhantes no passado, o que falou para outras pessoas, o que aprendeu com seus acertos e erros, como você decide encarar as coisas que acontecem contigo no dia a dia, quais são seus sonhos e objetivos de vida, do que gosta e do que detesta.


Simples, correto?

Eu não sabia, mas o que eu vi nessa palestra há mais de uma década era o conceito de accountability.

Pois bem. Sabendo agora sobre a Teoria do Terço e que ela é um jeito de explicar na prática o que é accountability, vou fazer umas perguntas com base numa situação hipotética:

Um galho de árvore caiu bem em cima do seu carro e amarrou o capô. De quem é a responsabilidade:

  1. Do capô amassado?
  2. De correr atrás de consertar o carro?
  3. Do conserto em si?

Respostas:

  1. O galho que caiu;
  2. Você;
  3. Do funileiro que você escolheu.


Óbvio, correto? É até meio idiota eu trazer esse exemplo, mas tudo tem um motivo.

Vou te colocar uma outra situação hipotética:

Você é responsável pela entrega de um relatório de resultados trimestral de onde trabalha. É com base nele que os trabalhos de outras três áreas da empresa são planejados e realizados. Faltando cinco dias para o prazo de entrega, o relatório ainda nem começou a ser feito e você pega dengue.

Daí eu pergunto: como esse relatório será entregue no prazo, estando você doente a ponto de não conseguir fazê-lo?

(vou te dar um tempinho para pensar na resposta)

















(já pensou?)

Bom, aqui vai a resposta para a situação: DEPENDE.

Você pode ter respondido que “outra pessoa fará por mim”. Mas tem alguém com o mesmo nível técnico que você, com o mesmo conhecimento e acesso às mesmas informações, no mesmo tempo hábil que você tem para realizar o mesmo relatório, com o mesmo padrão de qualidade?

Tem? Ótimo! Outra pergunta: essa pessoa está DISPONÍVEL para fazer isso? Ou você pensa que colega de trabalho que faz a mesma coisa que você é igual reserva de jogo de futebol? Fica parado no banco, sendo pago para trabalhar só quando você não está escalado?

Você também pode dizer que “vou negociar um prazo maior para a entrega do relatório”. Mas ele não é necessário para o planejamento do trabalho de outras três equipes? E o que essas três equipes vão fazer enquanto você se recupera?

“Mas isso é problema do meu chefe”, alguém pode falar. “Ele/ela ganha mais que eu por um motivo”.

Verdade.

Mas ele/ela pode resolver a situação de uma forma que você não goste tanto assim...

E vamos ser sinceros aqui: quando o assunto é trabalho, empresa nenhuma, por mais humana que seja, vai deixar de buscar resultados e bater metas por causa de você.

Empresa não tem coração, tem CNPJ.

(só que não é por isso que você vai virar o Super Homem corporativo e lutar contra as organizações malvadonas. Afinal, as organizações são organismos autônomos – como você e eu – que têm seus próprios objetivos – como você e eu)

Não quero, com tudo isso, jogar nos seus ombros 100% da responsabilidade sobre o que quer que aconteça nessa situação imaginária que coloquei acima. Mas com certeza vou jogar aqui 33,34% da responsabilidade dessa situação em você.

E esses 33,34% provavelmente são esses daqui: por que, faltando 5 dias para a entrega do relatório, ele mal tinha começado a ser feito por você?

  • “Faltou informação”. Você chegou a pedir a informação para alguém? Outras pessoas estavam atrasadas com a liberação da informação?
  • “Faltou tempo”. Você está sobrecarregado de trabalho? Você teve uma demanda urgente e só foi pensar no relatório depois que a demanda foi entregue? O prazo é pequeno entre a liberação a informação e a entrega do relatório?
  • “Eu esqueci de fazer / Eu empurrei com a barriga / Se não estivesse com dengue não haveria esse problema”. Pois é...

Quando falta a informação ou aquilo que você precisa para executar seu trabalho, quem tem que se virar para arranjar isso é o outro, não você. Outras pessoas são pagas para fazer o trabalho delas.

Significa que você tem que virar um carrasco tirano e estralar o chicote no lombo dos coleguinhas? NÃO! Contudo, você tem que cobrar (com jeito, com respeito, em tempo hábil, mas tem que cobrar).

Quando nos falta tempo para realizar as entregas, é preciso “levantar a mão” e pedir ajuda (do gestor, dos colegas, não importa). Se está sobrecarregado de trabalho, o que você precisa é a) passar parte do seu trabalho para outras pessoas OU; b) renegociar os prazos de entrega do seu trabalho com seu gestor OU; c) quando nenhuma das opções anteriores forem possíveis, deixar claro para as partes interessadas que você não é uma máquina e que vai ter coisa que vai atrasar - e perguntar o que preferem que você deixe em dia e o que pode ficar em atraso.

Quando você esquece de fazer algo ou sabe que empurrou com a barriga uma atividade, só tem uma coisa a ser feita: chega para quem de direito e repita isso daqui.

“Errei. Fui moleque. Peço perdão.”

O que não dá é jogar a responsabilidade do relatório atrasado num mosquito ou se martirizar aos prantos enquanto se pergunta “por que não usei repelente naquele dia?...”

Agora... Precisa chegar numa situação meio crítica (como essa do exemplo) para pensar em tudo isso?

Boa parte dos terços de responsabilidade que NÃO FICAM NA NOSSA MÃO costumam ficar em seus legítimos espaços quando nós, no NOSSO terço de responsabilidade, estabelecemos limites. Isso evita que a gente traga mais responsabilidades do que nos é devido, assim como evita que a gente more na Coitadolândia e se coloque na posição de que tudo de ruim é responsabilidade dos outros.

(ou de Mercúrio retrógrado)

E toda essa conversa foi só sobre um exemplo ligado a trabalho. Quantos outros exemplos, ligados à família, relacionamento amoroso, faculdade, amigos, saúde, dinheiro não existem por aí e que poderiam receber a mesma análise?

Portanto, seja qual situação ou problema que se apresente na sua frente, faça o que lhe caiba. E ponto final. Esses 33,34% de responsabilidade já são um caminhão de coisas que você deve fazer POR VOCÊ.

E aprender isso e colocar em prática NÃO É SIMPLES. Correto?



Ribeirão Preto, 20 de abril de 2024.






12 de mar. de 2024

"SEGUE" O FLUXO

Meu caro, minha cara.

Vista de cima, a piscina infantil do Clube de Regatas Santista tinha o formato de um feijão. Para uma criança de até uns 7, 8 anos, ela por si só já era desafiadora porque havia uma parte mais rasa e outra mais funda. Isso era "o máximo", pois seria como um indicador de que a gente poderia se aventurar nas outras duas piscinas do clube.

Domingo de manhã no verão era geralmente o dia para ir ao clube. Era um saco acordar cedo, eu não entendia porque minha mãe me dava banho para por um biquíni, não entendia porque ela passava protetor ANTES de chegar no clube. Ficava pulando na fila do exame médico, ansiosa por pular na piscina - achava aquilo uma burocracia desnecessaria no auge dos meus 7 anos.

Depois tinha que ir para o vestiário, guardar tudo num armário, colocar a pulseirinha com a chave do armário no pulso, subir a escadaria, passar pelo laguinho de água obrigatório para infestar os pés com cloro e, só então, a piscina infantil.

Anos se passaram entre a piscina infantil e a piscina super funda, que ficava ao lado da cadeira do salva-vidas. Era na piscina de feijão que treinava plantar bananeira, pois na super funda... bem... acho que o motivo é óbvio...

Foi na piscina infantil, isso já com quase 9 anos (eu acho) que tenho uma das lembranças mais legais daquele tempo. Acho que estávamos brincando de pega-pega e a regra é que não podia cortar caminho pelo meio da piscina. E naquele movimento de ir e vir, percebemos que havíamos formado uma corrente d'água que nos "ajudava" a correr/nadar mais rápidos. Logo a brincadeira deixou de ser o pega-pega e virou a de formar uma corrente tão forte, mas tão forte, que pudesse levar a todos numa volta completa pela piscina.

Todas as crianças começaram a andar no mesmo sentido, empurrando a água com as mãos para aumentar o fluxo. Em seguida, alguns pais também entraram - incluindo meu pai - para reforçar o time. Em pouco tempo, havíamos feito uma corrente tão forte que permitiu não apenas as crianças, mas os adultos também,                         serem levados a dar uma volta pela piscina em formado de feijão, sem a necessidade de nadar e por os pés no fundo.

Tudo isso acabou quando a direção do clube interveio. Eles alegaram que as crianças menores não estavam podendo aproveitar a piscina infantil pois as crianças mais velhas estavam formando sua própria corredeira.

Fomos para a piscina funda brincar de Jacque Cousteau.

Anos se passaram.

Décadas, na verdade.

Havia me esquecido da piscina com formato de feijão. 

Agora, estou "no mercado" novamente, procurando trabalho. Ontem a noite eu ponho a cabeça no travesseiro, me lembro dessa cena, e a epifania veio:

Há momentos em que seguimos o fluxos. Há momentos em que fazemos o fluxo.

Fazer dá trabalho, precisará de mais pessoas e pode ser que só dê certo se for num ambiente menor e mais controlado. Mas o fluxo vem. E vem forte.

Eu ainda não sei como fazer isso. Só percebi que "seguir o fluxo" não é mais a única possibilidade que há diante de mim.

Ribeirão Preto, 12 de março de 2024

(Hoje é aniversário de 3 anos da morte da minha mãe. Eu agora entendo porque tomar banho antes de por um biquíni e entrar numa piscina e uso protetor solar praticamente todos os dias...)



13 de jul. de 2023

CALDO VERDE E CANJA

Meu caro, minha cara...


A conta chegou. A água bateu na bunda. Não tem mais para onde correr.

Após dois anos e meio de vazio e comfort food, minha tristeza só tem a companhia dos 20 e poucos quilos que ganhei nesse período. Um ganho que não compensa nenhuma perda...

Mas, como eu disse, a conta chegou: pressão, glicemia, colesterol, dor. Cheguei ao ponto de me olhar no espelho e ver a pior versão de mim mesma - e a cereja desse bolo de merda é que essa versão lembrou muito minha mãe...

(e lá vamos nós tratar disso na terapia, né?)

Tirei as férias para correr atrás de médico (correr, não. Andar, pois não consigo correr mais). Ainda estou fazendo essa Via Crucis e esta semana foi dedicada ao endócrino e à nutricionista.

Resultado? A água não só bateu na bunda, mas deu aquela lambida gélida no traseiro, sabe? Comprei o leite de soja zero e o biscoito de arroz que a nutricionista mandou e respiro fundo dizendo para mim mesma que tudo isso é para meu bem.

(E fui chorar as pitangas com a minha terapeuta...)

Hoje, fonte geradora de grande ansiedade, a comida é um dos meus maiores prazeres e agora é fruto de grande culpa. E no decorrer da conversa, fui para um tempo em que a comida era só alegria.

Um tempo em que minha mãe cozinhava e ela era a melhor cozinheira do mundo e tudo o que eu comia era gostoso e tinha uma história por trás.

Como está meio frio esta noite, lembrei das sopas que ela fazia, em especial o caldo verde. Descrevi o passo a passo, sentindo o cheiro do paio refogado, da cebola e do alho fritando, a couve fininha murchando no fundo da panela e a batata cozinha e amassada se juntando ao bando. Ao final, azeite.

Com um bom pedaço de pão, essa sopa é dos deuses...

E ela sabia disso.

E o caldo verde me levou ao Almeida, com as paredes de azulejo verde água cobrindo tudo do chão ao teto, piso de tijolão vermelho e aquela cadeira laranja encardida, com os pés de ferro.

Toda vez que tinha aniversário, meu irmão e eu enchíamos o rabo de coxinha, refrigerante e maravilha, mas meus pais deixavam um espacinho do estômago para ir ao Almeida depois da festa e pedir um caldo verde ou canja. Lembro dos dois comendo, o Ricardo e eu brincando com o secador de mão de ar quente, enquanto na mesa ao lado tinha um velho barrigudo com a camisa aberta até o umbigo discutindo sobre o Santos com o garçom de calça preta e camisa branca, enquanto chegava o pessoal que saía do teatro municipal depois de uma apresentação, seguido por um povo emendando a balada por lá e por último (mas não menos importante), duas travestis jantando, com o lápis de olho derretido, caras de cansada, sabendo que assim que comerem, voltarão ao trabalho.

A canja era coisa de criança, era sopa de criança. Dela eu não gostava muito, não achava que ela acertava todas as vezes, mas comia mesmo assim, porque mesmo não tirando um 10, ela sempre passava de ano. Meus pais diziam que, quando éramos bebês, ela fazia uma canja com bastante arroz, frango, tomate, cenoura e ovo. Fazia para levar nos restaurantes que visitávamos, para gente não ter que comer a comida do restaurante e passar mal com alguma coisa.

(Eles eram desses...)

Volto para as sopas de adulto, volto para a situação em que me encontro hoje. Ao final da sessão, volto para a lista de coisas que tenho que fazer, comprar e comer para abandonar as coisas ruins que conquistei.

Quem diria que perder seria motivo de orgulho, não é mesmo?

Perder com parcimônia, com resignação.

Não tem mais para onde correr.

Terei que andar.

(e arriscar fazer o caldo verde que minha mãe fazia... sopa de adulto...)


Ribeirão Preto, 13 de julho de 2023.




9 de nov. de 2022

MICKEY ENCARDIDO

Meu caro, minha cara...

Encontrei o Mickey Encardido na Mogiana, quase chegando na Brasil. Tinha um papel alumínio com um sanduíche de pão de forma numa mão e a outra seguia estendida.

O rosto já não tinha mais nenhuma expressão. Acredito que a causa são os anos de sujeira e indiferença alheia que lhe fora transferida.

E não vou diminuir meu papel nisso, pois também mantive minha janela fechada.

Às vezes indo, às vezes voltando, encontrava o Mickey Encardido com pele de noz no mesmo quase cruzamento, com a mão aberta e o rosto vazio.

Uma vez tinha moedas no console e baixei o vidro. Levei a minha mão até a dele e despejei as moedas.

"É tudo o que eu tenho".

Não era. Eu tinha mais, tenho mais. Não ali, naquele agora, mas sei que tenho mais a dar e a fazer.

Mas do coração à mão há um mundo de distimia.

Naquele segundo de auto indulgência toquei em sua mão. A pele cor de noz também tinha textura de noz.

Casca dura abrigando fruto destroçado.

Abriu o verde e segui em frente.

Seguia para minha casa.

Ele seguiu no meu retrovisor. Seguiu na casa dele.


Ribeirão Preto, 09 de novembro de 2022.



10 de jun. de 2022

FAMA, VINHO E ÁGUA

Meu caro, minha cara.

Todas as noites eu sonho. Sonho muito. A diferença de hoje é que eu lembrei do meu sonho.

Sonhei com um dia aprazível. Um típico dia idílico de primavera (embora eu ache mesmo que os dias idílicos residam no outono).

No sonho, cheguei a uma festa onde só haviam pessoas famosas.

Não sabia quem elas eram, na verdade. Disse que eram famosas porque todas agiam como se fossem. Todas bebiam como se fossem.

No fundo, sabia que era uma festa de gente que queria aparentar o que não era. Pois uma festa só com gente famosa não seria tão grande assim.

Cheguei à festa de carro, dirigindo por uma rodovia. Embora onde eu estava o tempo estava agradável, o fundo do horizonte prometia uma tempestade como nunca havia se visto. Nuvens cor de chumbo evoluiam umas sobre as outras, produzindo os raios mais bonitos, capazes de tinguir de dourado e vermelho as curvas mais proeminentes de cada formação.

Era algo espetacular de se ver.

Cheguei na festa. Era tudo o que diziam. Gente bonita, pretensamente bem nascida e bem criada.

Ênfase no "pretensamente".

Vi isso quando os garçons distribuíam bebidas. Embora eram muitos, muitos convitados não tinham paciência de esperar as bebidas chegarem e iam direto às tinas de gelo buscar a tônica para seu gim.

O mesmo acontecia com as garrafas de vinho branco. Sei disso porque provei um Shiraz maravilhoso, mas não consegui outra taça porque os espertos bem nascidos e bem criados tomavam as garrafas dos engradados antes de qualquer um.

No meio do caminho, fui buscar o garçom que havia me prometido o Shiraz. O dia morno e rosado agora estava prestes a virar úmido e frio, mas ninguém notava. Vi o garçom, um senhor gordinho e de barba e cabelos brancos, esperando os bem nascidos e bem criados se afastarem da boqueta do bar para ver se ainda havia sobrado alguma garrafa. Naquele momento eu notei que não haveria nada do meu gosto para mim. Só o garçom ainda tinha esperança.

Voltei para meu lugar naquele campo por outro caminho. Um caminho mais quieto, onde não via mais ninguém. Digo campo pois era um lugar plano e gramado, mas também porque a festa era num antigo estádio em ruínas. 

Acho que o pessoal que organizou a festa pensou que um estádio em ruínas, com arquibancadas de concreto rachado cheio de samambaias, seria vintage.

Sentei na arquibancava velha com as corajosas samambaias. Ao terminar meu copo, me virei e fiquei assustada com o que eu vi: estava separada do restante da festa por um paredão de água escura, água da mesma cor que as nuvens que havia visto antes.

Essa parede de água era muito alta, a ponto de erguer a cabeça para ver o topo - como faço quando vejo um grande prédio.

Fiquei aterrorizada. Pensei que em algum momento toda aquela água cairia e eu seria atingida, mas não aconteceu de fato. Consegui me esgueirar pela beirada da arquibancada e voltar para as outras pessoas, mas não senti nenhum alento quando as vi. Ser emparedada pela água só serviu para confirmar que aquelas pessoas não tinham nada a ver comigo.

Olhava para todos os lados, mas sem a angústia de ser esmagada por toneladas de água. Procurava um jeito de sair dali. Desisti do vinho, desisti de mostrar os dentes para o pessoal bonito e educado que encontrava.

Só que perceberam isso. E por isso começaram a me olhar torto, com desdém.

(esse momento é que o sonho muda, mas mesmo havendo esse corte, o sonho não mudou)

Fui expulsa. Ou fugi. Não consegui entender se as pessoas que me direcionavam para fora estavam me ajudando ou não. Só sei que saí de lá e "caí" em um mar de peônias de papel de seda, grandes como camas, macias como camas. Fiquei maravilhada...

Saí do campo das peônias gigantes feliz, finalmente sentindo que o dia morno e cor de rosa era para mim. Não era, mas não me importei. Entrei em outra festa sem querer, mas fui super bem recebida. Era o encontro anual de amigas de área de atuação, uma festa com mais pompa, mais enfeites, mais vinho, mais comida.

No céu dessa festa não haviam nuvens de chumbo.

Para minha surpresa, ela acontecia ao lado da festa da gente bonita e bem educada. Entramos nessa festa de braços dados, a anfitriã das peônias e eu. Todos nos olhavam. Ou melhor: olhavam para mim. A expulsa, a fugitiva, sabe-se lá o que eu era.

A que não se encaixou, voltou. E de uma festa onde o vinho não era roubado da boqueta da cozinha por gente bem nascida.

Ribeirão Preto, 10 de junho de 2022



27 de abr. de 2022

Roy e Decker

 Meu caro, minha cara.


Decker chega no prédio carcomido e sobe pelo elevador. Roy o espera e isso não é segredo para ninguém.

Os dois lutam. Ou brigam. Sei lá... Muita porrada misturada com parede que desaparece nessa história...

Sobe andar, desce andar e, por fim, param no telhado.

Chove demais nessa noite.

Demais...

Mas tudo que começa, termina.

E o princípio do fim foi um olhando para o outro, sentados, na chuva.

"Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-C brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva."

A cabeça platinada se abaixa, os olhos se fecham, e lá se foi ele para o vazio da inexistência - o mesmo destino que Decker terá um dia. O mesmo destino que a água que cai dos olhos tem ao tentar concorrer com aquela que cai do céu...


(...)


Ribeirão Preto, 27 de abril de 2022.




29 de dez. de 2021

A MEMÓRIA QUE NÃO SE QUER TER

 Meu caro, minha cara. 


As pernas doem, mas os pés e tornozelos doem mais.

A semana está... "intensa"...

Olho para cada documento e sou (quase) sumária: "vai para o lixo", penso eu. "E quando o advogado me liberar, jogo fora mais outro tanto".

No chão, o que antes era importante agora não é nada além de informação inútil. 

Paro um pouco e leio o que escrevi. Apago a metade. Acho piegas, mesmo que eu me ache no direito a ser piegas.

Paro outro pouco e descanso. Mas logo volto. As mãos coçam para jogar fora mais papel inútil. 

Só que os papéis inúteis estão diminuindo...

Num dos muitos pacotinhos, achei uma 3x4 do Tado de terno branco e gravata borboleta. Gostaria de ter conhecido ele pessoalmente, não apenas da memória de outras pessoas.

Minha avó quase nunca falava dele. Da mesma forma que nunca falou do meu pai quando era criança. 

(significativo uma mãe nunca falar de seu filho quando era criança, não?)

Uma pena. Eu queria saber como meu pai era quando criança.

Mas todos que o conheceram assim já estão mortos.

Todos os que a conheceram quando jovem também já morreram. Quem realmente a conheceu e quem realmente sabe o que aconteceu.

Todos mortos.

Quanto a mim, só lembro de fragmentos, opiniões eviesadas e de muitas lacunas...


Ribeirão Preto, 29 de dezembro de 2021.




19 de nov. de 2021

A MAIS INTELIGENTE DA CASA

Meu caro, minha cara.

Digo e repito: o ser mais inteligente aqui em casa é a Margot.

Não que o QI meu e do meu marido seja baixo, não é esse o caso.

Mas a Margot é, de longe, o mamífero mais inteligente entre essas paredes que chamamos de lar.

Ela não dá nó em pingo d'água. Ela não canta a música tema do GOT miando (acho aquele vídeo um sarro). Tampouco participa de um certo dueto de Puccini.

Ela não faz nada de extraordinário,  exceto ser espontânea e, espontaneamente, busca ter e fazer as coisas que gosta.

Ela não é hedonista e nem mimada. Até porque, para um gato, ela obedece bastante a gente. Mas é um prazer ver como ela lida com qualquer adversidade: ela dá de ombros a obstáculos e vai atrás do que quer, seja um petisco, um besourinho ou um brinquedo. Quando o Juvenal está dormindo e ela quer brincar, ela o acorda (se ele gosta de ser acordado, aí já é outra coisa...). Quando a Riccota está mau humorada, ela desvia do seu caminho e continua. Quando ela quer colo, ela pede pra gente.

Ela não liga para essas coisas que, se fosse comigo, eu ligaria; coisas como "o que os outros vão pensar?" ou "será  que devo/não devo fazer algo?"... "será que isso é encanação minha?" sabe? esse tipo de coisas...

Ela é engenhosa, curiosa, tem energia e é muito meiga (exceto quando come as minhas plantas).

Ela me lembra sempre que é preciso se mexer para se ter o que quer; que conseguimos algo quando vamos atrás.

É o que ela faz todos os dias.

Por isso a considero a mais inteligente por aqui.
Já disse em mais de uma ocasião que a gente nunca sabe de onde vem a informação ou a ideia que nos fará pensar/agir diferente.

Nos últimos tempos, essa filhotinha tem me ensinado muito. Mas é preciso praticar também.
Pois bem: quero ser inteligente como ela e ter prazer com o que é simples.

Obrigada, meu bebezinho...


Ribeirão Preto,  19 de novembro de 2021




5 de nov. de 2021

CAMPO COBERTO DE FLORES

 Meu caro, minha cara.


Caminhei pela grama macia até o topo do campo, com seu aclive suave e um sol e céu límpidos acima de mim.

Na mão, dois buquês.

Ajoelho para deixar o primeiro buquê no campo ensolarado. Acaricio as rosas pensando que eu acariciou suas mãos. Mãos sempre macias, quentes e gordinhas, cheias do afeto que poderia dar.

"Sempre te dei flores vivas porque queria que elas continuassem vivendo e florescendo ao seu lado", como se o ciclo de florescer e fenecer fosse uma exclusividade só das flores, não da planta em si.

Hoje, te dou um buquê de flores mortas, mas lindas, pois a beleza da flor acaba num momento, assim como a sua beleza também se foi.

Depois, me volto para o segundo buquê. São astromélias amarelas. 

"Nunca te dei flores. Acho que foi um desperdício de tempo não ter te dado buquês antes. Nem sei ao certo sua cor preferida e eis-me aqui, com flores amarelas".

"Sinto sua falta. Sinto muito a sua falta..."

("por que vocês tinham que levar ao pé da letra a história de que um não podia viver sem o outro?")

Enquanto penso em tudo isso e procuro sublimar a minha saudade escrevendo, um tratorista passa atrás de mim perguntando as horas. "São 10:18h", respondi.

"Obrigado!"

"De nada..."

Isso me faz lembrar que a vida segue, o tempo passa e o campo florido se prepara para receber mais flores mortas.

(...)

Voltando para o carro, escuto as cigarras e vejo flamboyants floridos ao longe, perto de coqueiros sem cocos.

"Vocês também florescerão e fenecerão", digo a elas e às cigarras.

E digo isso a mim mesma, enquanto fecho a porta do carro e ligo o motor para ir embora daqui...


Mococa, 5 de novembro de 2021.








16 de out. de 2021

TROUXA ENCHARCADA DE SANGUE

 Meu caro, minha cara.


Minha mãe sempre me contava algumas histórias sobre a minha avó.  Embora me lembre de quase todas, há uma que sempre me marcou, mas nunca havia entendido por qual motivo.

Quando minha mãe era criança, ela e a família eram colonos em uma fazenda. Um dia, minha avó foi chamada para ajudar no parto de uma conhecida.

O colchão, a roupa de cama e camisola ficaram ensopados de sangue, porque foi um parto muito difícil.

Mas mãe e bebê sobreviveram (segundo minha mãe).

Para ajudar a família (pois demoraria dias ou semanas até a parturiente melhorar), minha avó pegou todas as roupas usadas no parto para lavar.

Embalou tudo dentro de uma trouxa enorme e foi até o rio que havia por perto. Fincou uma estaca em cada lado do rio (não era muito largo e profundo onde ela fez isso), amarrou uma corda na ponta de cada estaca e, por fim, amarrou a trouxa de roupa no meio da corda, tomando o cuidado para que tudo ficasse bem preso e não fosse levado pela correnteza.

Da forma como ela fez, a corredeira suave do rio fazia com que suas águas passassem por entre a trouxa, levando para baixo toda a sujeira do parto e todo o sangue. 

Não me recordo agora quanto tempo minha mãe disse que essa trouxa ficou amarrada nessa corda, dentro do rio.

Um dia? Dois? Uma semana?

Realmente, não tenho como dar uma estimativa de tempo confiável. 

Mas sei que, ao final desse período, minha avó buscou a trouxa com as roupas e todo o serviço pesado havia sido feito pelo tempo, pela água e pelo engenho do seu raciocínio. 


(...)


Como disse acima, até então não havia me dado conta do porquê essa história ficou na minha memória desde o momento que eu a escutei.

Mas hoje eu percebi.

A violência de trazer algo novo para este mundo, a debilidade que isso provoca, a preservação do que se é importante, a ação do tempo nas coisas e pessoas, a sagacidade do simples, o poder da atitude...

Tudo hoje fez sentido...

E, fazendo sentido, me senti trouxa... Uma trouxa muito pesada, que não sabe ao certo o que há de novo no mundo, apenas esperando ansiosamente um rio de lágrimas para me lavar e levar embora tudo aquilo que não faz mais sentido algum...


(...)


Céus... Quando isso tudo vai ter um fim?...


Ribeirão Preto,  16 de outubro de 2021...




10 de out. de 2021

DEUSES DE UMA NOITE SÓ

Meu caro, minha cara.


Duas noites atrás conheci dois deuses em meu sonho.

Um casal, cujo único objetivo nessa terra era ficarem vivos e garantirem. (por qualquer meio) que seus filhos também se mantivessem assim.

E quando eu digo "por qualquer meio", eu falo muito sério.

Porque estavam dispostos a matar, enganar, subjugar, encarcerar e fazer sofrer quem quisesse impedir esses dois objetivos.

Além disso, sempre que permitido, aumentavam a prole, pois as imagens que eu tive davam a entender que o índice de mortalidade deles na infância era muito alto. Porém, essa preocupação não era apenas pelos pequenos e desprotegidos: gerar uma criança significava dar a elas uma parte de si, uma parte da uma força, na esperança que, quando crescidas, pudessem também lutar para que os de sua espécie também sobrevivessem e prosperassem.

No entanto, a noite em que eles me foram apresentados também foi a noite em que fiquei sabendo que seus planos foram frustrados. Pois sua casa foi invadida e seus filhos, caçados. Vi as crianças mais novas, deuses sem algum poder, serem arrancadas do colo dos irmãos mais velhos, enquanto o casal tentava (em vão) ofender seus ofensores com a força dos braços e as unhas em forma de adaga.

Foi um massacre. Ambos os lados tiveram suas baixas, mas o mais cruel foi ver os filhos daqueles deuses inertes, com peito e estômagos feridos, com gargantas rasgadas e olhos frios e fechados.

Os dois deuses, adultos, ao verem que sua permanência na própria casa era impossível, fugiram para algum canto feio e sujo, longe e mal afamado o suficiente para espantar invasores por si só.

Aos prantos, ambos fizeram as únicas coisas que poderiam fazer no momento: chorar muito, buscar consolo um nos braços do outro, jurar vingança e buscar se fortalecer.

Para isso, precisavam de ajuda e ela não tardou. Sabendo que os dois deuses foram vencidos e os pequenos deuses, mortos, seus apoiadores (ou discípulos, ou adoradores) vieram ao seu encontro. Passavam por um longo corredor, cheio de lâminas, que testavam a vontade dos crentes até o poderoso e triste casal. Enquanto a deusa perdia suas forças e, pouco a pouco via seus dedos e pele se transformarem em palha, seu par sofria transformação parecida, com as mãos se transformando em garras e o rosto, o semblante de um cachorro preto.

Com a ajuda de seus adoradores, os dois se deitaram em uma canoa feita de juncos e puderam descansar sob uma cama de pétalas de rosas brancas, rosas e vermelhas. As últimas pétalas foram deixadas para serem jogadas delicadamente sobre o rosto de palha e o rosto de cão.

Eles iriam dormir, protegidos parte pela escuridão da noite, parte pelo fogo das tochas que os discípulos mantinham acesas.

Para embalar o sono dos deuses, uma mulher velou por eles. Estava vestida de branco, tinha os cabelos soltos e muito pretos. Sobre a cabeça, uma guirlanda de flores vermelhas. Durante a canção que entoava, dançava em rodopios largos, ritmados e lentos. Perguntei a uma das pessoas que ajudaram a preparar o sono dos deuses quem era a mulher: uma sacerdotisa, uma virgem, uma noiva. Eles disseram que não era nenhuma coisa, nem outra. Eles não precisavam de ninguém especial, pois o importante era que alguém se importasse o suficiente para estar ali por eles, com e para eles.

Enquanto a mulher cantava e dançava, os deuses adormeceram e, pelo menos durante aquela noite, dormiram e puderam se esquecer que um dia haviam tido filhos e que, se lembrando deles, esqueceram que um dia foram assassinados por causa do medo transformado em inquisição.

Ao amanhecer, nas ruínas do refúgio, os apoiadores ainda estavam lá, no alto do edifício antigo e carcomido pelo tempo e vegetação. A claridade mostrava que o prédio quase não tinha mais telhados e apenas poucos trechos ainda mantinham paredes em pé, em detrimento das árvores e trepadeiras. Mesmo assim, era um belo local.

Foi também na claridade do dia que eu percebi quem eram aqueles adoradores: párias, deformados, doentes, velhos, pessoas excluídas de forma geral.

Na canoa feita de juncos, deus e deusa acordam, já com seus rostos "normais" de volta. De mãos dadas, foram de súdito a súdito agradecer pela vigília, enquanto impunham as mãos sobre sobre suas cabeças e davam beijos nos rostos de todos.

E prometeram que, enquanto não tivessem seus próprios filhos novamente, adotariam todos aqueles que os guardaram naquela noite, que os defenderiam e transmitiriam a eles as coisas que conheciam, visto que eles andavam por sobre a terra por muitas e muitas gerações e absorveram um número sem fim de informações e sabedoria.

Por últimos, os deuses olharam para mim e pegaram na minha mão com ternura. Lembro da expressão deles: ela, de vestido vermelho e agora com a girlanda de flores vermelhas lhe cingindo a testa, ele, com a barba volumosa e preta e semblante amigo.

Também me lembro dos sorrisos que me deram: um sorriso sem dentes, um sorriso satisfeito, um sorriso que continha uma longa história. Nossas mãos se separaram, eles começaram sua caminhada para o mundo novamente e eu acordei.

Ribeirão Bonito, 10 de outubro de 2021.




7 de out. de 2021

OH, F3&€$!!! CAÍ NA BESTEIRA DE LER NIETZSCHE DE NOVO!!!

Meu caro, minha cara.

Poderia começar com uma frase impactante, do tipo "só consegui terminar de ler 'Zaratustra' e entender alguma coisa por agora, depois de 15 anos de tentativas frustradas e bem nesse momento de luto, por causa da morte dos meus pais."

Mas acho que seria muito forçado.

Não que essa seja uma afirmação mentirosa. Mas é meio exagerada. Prefiro dizer que conseguir ter lido e entendido alguma coisa do livro daquele louvável doido no momento terrível que estou vivendo agora é, pelo menos, uma coincidência muito grande.

O que me faz pensar que ler loucuras e verdades "cuspidas" na sua cara só farão sentido quando seu senso de sentido "normal" for para o saco a algum tempo.

E isso me leva a cogitar a hipótese que, para loucuras e verdades, seu espírito deve estar fora da ordem para entender. Precisa estar extra-ao-ordinário.

Sendo extra, fora, além da fronteira. Aí você estará no terreno certo (ou melhor: no terreno incerto das possibilidades, dos caminhos, dos medos revelados, do pânico e do ponto de partida).

Você será a carta zero do tarô. O LSD das experiências atuais sobre o uso de psicotrópicos para tratamento de depressão. Será felicidade e angústia por não ter mais seus referenciais de família e emprego. Ou daquilo que você considera como seus referenciais, a pedra angular da sua vida, passado, futuro e caráter.

Será sesta, floricultor amador, dona de casa e da casa. Será atenção,  preocupação, desapego, descanso, esperança, sonhos, pequenas risadas, pequenos agrados e ações pequenas e importantes.

Experimentará tudo. Dormirá e experimentará quase nada. E pensará: "Isso é que é ter tempo para si mesmo?".

Oh, meu caro e minha cara... Durante a dor e na dificuldade de aceitar consolo, caí na besteira de ler Nietzsche de novo!!! E o pior!!! Vou fazer umas tantas outras vezes! Falo isso como uma profecia e como uma sentença!

"Bem aventurados são aqueles que estão dispostos a pirar o cabeção,  pois só assim terão uma chance maior de entender as palavras daquele louco sifilítico!!! Que o caos seja louvado!!!"

"Tapas na cara! É o que nos aguardam! Tapas na cara, viés histórico e conscientização inconveniente e necessária é o que nos aguardam, meu caro e minha cara!"

Tinha medo de romper com o mundo, mas o mundo me rompeu inteira e agora me aparece esse mundo novo, do declínio, construção e conquista, tocando no meu cotovelo com a mão gelada e em brasa. Ele me toca com troça, firmeza e com muita verdade. A verdade que se tatua na pele para se lembrar que apenas quem age aprende e que, para aprender mais - se maravilhar com o novo e se deitar nas plumas da satisfação - faz-se necessário agir, se deixar atingir, se deixar morrer, doer e nascer.

Pois quem se deixa atingir, sentir, doer, morrer, se esquecer e nascer é quem vive de novo e de novo e de novo.

(Com ênfase no "morrer", pois do pó viemos e ao pó voltaremos - e isso não é bíblico ou cármico. É químico)

(...)

Aos poucos, me transformo em pó, nitratos, fosfatos, carbono e buffet de bactéria. Fecho o livro e reflito. Não sobre ele, mas sobre mim. Aos poucos, respiro fundo, pois respirar ainda é coisa inédita. Aos poucos, as palavras se assentam, voam, chocam, morrem e ganham vida.

Aos poucos aceito essa desintegração que me unirá um dia a algo lá na frente.

Aos poucos... voar, pousar, dormir... para depois acordar e ver no que vai dar...

(...)

Obrigada, velho-maluco-que-teve-uma-vida-disfuncional-(de-acordo-com-os-padrões-da-sociedade-da-época). Obrigada por me lembrar que tenho presas, não apenas molares.

E que tenho escolhas.

Eu já havia me esquecido disso.

Ribeirão Preto, 7 de outubro de 2021.



8 de set. de 2021

POTINHOS, LEMBRANCAS E CHEIRO DE SOL

Meu caro, minha cara.

"O que é esse bando de potes aqui?"

"E eu que sei? Quem deve ter colocados aí foi teu pai!"

"Esses potes estão novinhos..."

"Ah, Carolina... você não conhece seu pai? Ele enfurna tudo e depois se esquece!"

"Mas você quer me convencer que o pai comprou esses potes sozinho, sem você saber?"

"Ah, Carolina! Sei lá quando isso foi comprado!"

"A notinha tá aqui. Deixa eu ver: abril de 2018... Você ainda quer que eu acredite que você não sabia de nada?"

"Ah... eu não sei, Carolina! Teu pai que guardou, deveria ver com ele."

"Mas você era a dona da casa e vem me dizer que não sabia?"

"Ah, Carolina! Não enche meu saco!"

"Quer dizer então que você tinha potes novinhos, bonitinhos, e preferiu ficar com aqueles potes quebrados e velhos lá na cozinha?"

"Eu não escolhi nada! Seu pai que enfurnou tudo aí do lado do computador! Ele sabe que essas coisas aí da parte debaixo eu não mexia!"

"Então isso significa que você não sabia o que tinha na sua própria casa?"

"O que você quer, Carolina? Quer me ver no chão? Se acha muito espertinha, muito doninha de si falando essas coisas, mas nunca passou pelo que eu passei. Você não sabe o que foi viver num lugar onde nunca pode usar suas próprias coisas! E tudo isso pra que? Pra vocês darem tudo de mão beijada por aí."

"Mas vocês tinham coisas que nunca usaram. Além disso, o Ricardo e eu já  temos nossas casas montadas. Pra que mais?"

"Pra uma hora de necessidade! Quando forem receber alguém, fazer um almoço, um jantar, sei lá! Tanta coisa boa que vocês poderiam ter ficado! Olha só essas toalhas, vocês não encontram mais esse barrado por aí!"

"Mãe, você acabou de reclamar que não pôde usar as suas coisas por causa da vó; agora você quer que a gente deixe de usar nossas coisas para usar as suas? Você praticamente quer fazer com a gente o que a vó fez com você!"

"Nao tem nada a ver uma coisa com a outra! Ela colocou os panos velhos dela, as quinquilharias velhas dela antes que eu pudesse colocar as minhas coisinhas e os meus enfeitinhos pra decorar a minha casa do jeito que eu queria. O que eu tô falando é que não precisa jogar as suas coisas fora, parar de usar. Mas guarda essas daqui. São coisa boa, coisa fina!"

"Você sabe que a gente não vai fazer isso, não é?"

"Ah! Quer saber? QUE SE DANE!Já que vocês não dão valor, então dá tudo mesmo. Dá pra gente que vai usar, porque vocês parecem que tem vergonha das coisas que tem aqui em casa!"

(e lá se vai a imagem dela, puta da vida como sempre, sempre que via suas ideias e vontades contrariadas)

"Você já parou pra pensar que sempre que eu imagino a gente conversando, a gente sempre discute?"

"Ah... Mas é claro! Pra você eu sempre fui a bruxa, não é mesmo?"

"Na verdade, eu sempre te achei triste."

(silêncio. Até a minha imaginação, baseada no conhecimento e impressões que tinha dela enquanto viva, resolveu bugar)

(nesse momento, lembro quando conversamos numa Páscoa qualquer. Quando ela me disse que não faria terapia e que não conseguia lidar com a realidade da forma como eu a encarava: não conseguia encarar o fato de que muitas coisas na própria vida não saíram como desejava, incluindo a própria filha, a quem pensava que era uma porra loka perdida...)

(a imagem dela vai embora)

"Até mesmo na minha imaginação a gente briga", pensou eu com meus botões.

(depois disso, vou pegar as últimas peças de roupa no varal. Eram peças de roupa que iremos doar - a última leva de doação das coisas que, um dia, foram dos meus pais. Pego cada uma daquelas blusas e lembro como ela ficava bonita com cada uma delas. Em uma, eu segurei contra o rosto e senti o cheiro de sol e sabão em pó. Era o cheiro dela, mais do que qualquer perfume)

"Eu sinto muito por não conseguirmos nos acertar."

(silêncio. Não consegui achar respostas. Em parte, porque ela se foi antes disso acontecer. Mas também porque a única forma de se acertar com ela seria acatar passivamente tudo o que ela queria)

"Eu sinto muito que as coisas não saíram como você quis, mamãe, mas não vou pedir desculpas por nada..."

Ribeirão Preto,  8 de setembro de 2021.